A câmera IMAX ficou 30% mais silenciosa e é por isso que A Odisseia existe
A IMAX redesenhou a câmera de película para Nolan gravar diálogo em locação. O problema por trás disso aparece em qualquer captação.

Uma câmera IMAX de película puxa o negativo a cerca de 1,7 metro por segundo — 5,6 pés, no número da própria IMAX — e trava esse mesmo negativo 24 vezes por segundo, com precisão absoluta, porque cada fotograma de 65mm tem quase o tamanho de um cartão de crédito. É física, não é defeito de projeto. O resultado é a imagem mais detalhada que o cinema comercial consegue produzir — e um barulho que come qualquer diálogo captado perto da câmera.
Foi por isso que, até este mês, nenhum longa da história tinha sido rodado inteiro em IMAX. Nolan vinha aumentando a dose desde O Cavaleiro das Trevas, em 2008, e chegou a encomendar película preto e branco 65mm à Kodak para fazer Oppenheimer. Mas a cena de diálogo sempre ia para outra câmera. A Odisseia, que estreou em 17 de julho, é o primeiro filme em que todos os planos saíram de câmera IMAX de película. A barreira que caiu foi mecânica, não artística.

A câmera que a IMAX precisou construir do zero
O pedido de Nolan e do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema à IMAX foi bem específico: tirar o barulho durante a gravação.
A resposta foi a Keighley Film Camera, uma geração nova, menor e mais leve, com carcaça de fibra de carbono e mecanismo interno redesenhado. Ficou cerca de 30% mais silenciosa que os modelos anteriores. Van Hoytema descreveu a diferença de ruído como a distância entre um cortador de grama fora de controle e uma máquina de costura bem lubrificada.
E o herói técnico da história não é nem a câmera nova sozinha: é o blimp, o invólucro acústico feito de várias camadas de material que abafa o ruído do mecanismo, com portas ópticas para o visor e para a lente. Foi ele que baixou o barulho a ponto de o mixer de produção Richard King captar diálogo limpo direto no set — coisa que nunca tinha sido feita num filme IMAX. É uma caixa pesada, continua sendo um conjunto que precisa de equipe, plataforma e paciência para sair do lugar. Só que agora sai do lugar com o microfone por perto.
Onde nem o blimp cabia — num barco, em mar agitado — a Keighley silenciosa segurou sozinha, porque nessas cenas o ator já projetava a voz contra o vento e a câmera não brigava com ele.
Some a isso a película: foram cerca de dois milhões de pés de negativo 65mm, quase três milhões de dólares só em filme virgem. É mais que o orçamento anual de muita produtora brasileira gasto em rolo.

Por que 30% resolve um problema que parecia 100%?
Ruído de câmera é um problema de distância mínima, e distância mínima é o que decide se você tem áudio ou não: toda fonte contínua perto do set empurra o boom para longe, e boom longe capta a sala inteira junto com o ator, o que na prática significa que você já perdeu o take e ainda não sabe.
Baixar 30% na fonte e ainda envolver essa fonte num invólucro acústico encurta essa distância. Aí a conta muda de figura, porque a relação entre a voz e o ruído de fundo não melhora na mesma proporção que o ruído caiu — ela melhora muito mais, já que o microfone encostou. De um lado, dublar o filme inteiro em estúdio depois. Do outro, usar o som que foi gravado na locação, com a acústica do lugar e a interpretação daquele dia.
Nolan escolheu a segunda opção.
O que podemos roubar disso para uma produção “normal”
Talvez a gente nunca encoste numa Keighley. Mas o problema é exatamente o mesmo que aparece em toda captação em locação: uma fonte de ruído contínuo, mecânica, perto do microfone. Ar-condicionado da sala de reunião (que tem o dom de ligar no take bom e nunca no ensaio), geladeira da copa, gerador, cooler de painel de LED, entre muitas outras fontes possíveis.
A lição está na ordem em que a IMAX atacou o problema. Nolan não pediu um plugin de redução de ruído melhor. Ele pediu uma câmera mais silenciosa.
Tratar a fonte antes de tratar o sinal continua sendo a coisa mais barata que existe em áudio. Desligar o ar-condicionado durante o take, tirar a geladeira da tomada, afastar o gerador, encostar o microfone o máximo que o enquadramento permitir, e até gravar trinta segundos de room tone antes de todo mundo ir embora.
Nenhuma dessas cinco coisas custa diária extra. Todas elas são esquecidas com frequência, inclusive por nós, geralmente no dia em que o cliente marcou a gravação no andar de cima da casa de máquinas.
Vale a pena assistir “A Odisseia”?
O formato que Nolan filmou, IMAX 70mm em 1.43:1, roda em cerca de quarenta salas no mundo inteiro. Nenhuma delas fica no Brasil . Quem for assistir “A Odisseia” aqui, vai ver em IMAX digital, Dolby Cinema ou sala convencional, com parte da área da imagem original cortada.
Nós fomos assistir. Sim, o time inteiro da YAD junto no cinema para contemplar esse marco na história do cinema. E o que ficou na memória não foi o que a gente esperava que ficasse.
Todo o discurso técnico é sobre imagem — 65mm, o negócio do cartão de crédito, a proporção 1.43:1. Mas o que sai do cinema marcado na sua memória é o som. A trilha conduz o tempo todo, e o desenho de som tem duas assinaturas que a gente não vai esquecer tão cedo: o arco de Odisseu sendo encordoado e o som do ciclope.
Impressão de quem assistiu: o áudio impacta mais que o visual — e isso, num filme feito inteiro pra ser visto, diz muito sobre por que valeu a briga toda pra captar som direto.
A construção também merece nota. A história todo mundo já conhece; o mérito está na recontagem — os cortes de tempo, a narrativa que se monta sozinha, elaborada e ainda assim fácil de acompanhar, até a mensagem final sobre a decadência de uma sociedade que era feita de homens do mar. Cor, fotografia, figurino, cenário: tem cena em que você esquece de respirar.
Vale em qualquer sala. Vale mais em IMAX, mesmo na versão digital que temos aqui. Só não dá pra ver o 1.43:1 que o Nolan viu — pra isso, seria preciso estar numa das 41 salas.
Vale um detalhe: o filme não foi todo rodado nas câmeras novas. A IMAX fabricou quatro unidades da Keighley até agora, e Nolan usou duas delas em A Odisseia, ao lado de cinco câmeras da geração anterior. As Keighley responderam por volta de 15% do que ficou na tela, entrando onde os corpos antigos eram grandes ou pesados demais (no navio e no mar, por exemplo). O que tornou o filme inteiro possível não foi a câmera nova sozinha. Foi o blimp, que funciona nas duas gerações.
Uma outra Keighley já foi parar na mão de Denis Villeneuve, em Duna: Parte Três. Pela primeira vez desde que essas câmeras existem, dá pra ter dois filmes rodando em IMAX película ao mesmo tempo.
E você? Já assistiu A Odisseia?
