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Star Wars: O Mandaloriano e Grogu usou painel de LED ao contrário — e deu uma aula de produção

O Mandalorian e Grogu filmou miniaturas dentro de um cubo de LED para resolver um problema de reflexo. A lição vale para qualquer produção.

Cena do filme Star Wars: O Mandaloriano e Grogu.

Todo mundo aprendeu que um painel de LED serve para uma coisa: colocar um cenário atrás do ator sem sair do estúdio. Foi assim que o primeiro Mandalorian ficou famoso em 2019, e virou sinônimo de virtual production. Em O Mandaloriano e Grogu, a equipe da ILM montou um cubo de LED para fazer o contrário do que as “instruções” dizem. Não para substituir cenário, mas para dar reflexo a um pedaço de metal.

E esse pedaço de metal tinha 1,2 metros de comprimento.

O problema: a nave brilhante

Boa parte dos planos da Razor Crest, a nave do Mandaloriano, não é computação gráfica. É uma miniatura de 1,2 metros, como conta o diretor de fotografia David Klein, ASC. Quando a nave está parada, e às vezes até voando, o que está na tela é o modelo físico.

O problema é que a Razor Crest, nas palavras do supervisor de efeitos visuais John Knoll, é um objeto muito reflexivo, de acabamento todo metálico. E metal brilhante não perdoa: ele mostra na superfície tudo o que está em volta. Na primeira temporada da série, Knoll limitou as tomadas da miniatura ao espaço aberto, porque ali a luz é simples — um sol, umas placas de rebatimento bem posicionadas, e pronto. Mas assim que a nave entra na atmosfera, voando entre nuvens ou pousando em algum lugar, o metal precisa refletir um ambiente inteiro para parecer real. Sol e refletor não dão conta disso.

Painel de led curvado utilizado nas gravações do filme Mandaloriano e Grogu
Images courtesy of Lucasfilm Ltd. and the filmmakers.

A solução: um cubo de LED de 2,4 metros

A resposta foi construir um cubo de LED de 2,44 metros em cada lado, reaproveitando painéis do volume principal da produção. Dentro dele, a miniatura da Razor Crest foi filmada com motion control enquanto as telas ao redor exibiam céu, nuvem e paisagem. O metal da nave passou a refletir esse conteúdo, e o reflexo é o que vende a ilusão.

Knoll é direto sobre o resultado: para ele, não daria para conseguir elementos de miniatura tão bons de nenhum outro jeito.

Tem um detalhe de gambiarra fina nessa montagem que vale contar, porque é o tipo de coisa que separa quem entende de teoria e quem já testou na prática. Um cubo fechado de LED por todos os lados seria o ideal para o reflexo, só que é impossível: a câmera precisa de um lugar para ficar. Sobra sempre um lado aberto — e esse lado aberto aparece refletido na nave como um buraco preto. A saída de Knoll foi esticar Mylar, um material espelhado, sobre placas de foamcore e fechar o lado aberto o máximo possível, sem tampar a miniatura, para devolver mais reflexo àquela superfície brilhante. É até engraçado pensar que um material de papelaria resolveu um problema de milhões.

A miniatura de 1976 que nunca tinha sido filmada

Já que o assunto é velho encontrando novo, a produção fez uma das coisas mais bonitas que dá para fazer com efeito prático: filmou, pela primeira vez, um modelo construído há quase 50 anos.

Na batalha final no planeta Nal Hutta, aparecem naves Y-Wing da Aliança Rebelde. Uma delas é um modelo original construído em 1976 para o primeiro Star Wars, com listras vermelhas — feito antes de a produção decidir padronizar as listras em amarelo, reservando o vermelho para o esquadrão do herói. Esse modelo foi mandado para Londres como referência de arte, nunca foi filmado, e se danificou na volta. Ficou décadas guardado. O modelista John Goodson o restaurou para o futuro museu do George Lucas, e a equipe negociou com o museu para filmar dois elementos dele. Meio século depois, o modelo finalmente entrou num filme.

Um olhar mais atento ao cockpit desgastado e às listras vermelhas de esquadrão da Y-Wing.
Images courtesy of Lucasfilm Ltd. and the filmmakers.

O que podemos roubar disso?

Talvez você não tenha um cubo de LED, e provavelmente nunca vai filmar uma miniatura de nave. Não é esse o ponto.

O ponto é a pergunta que a ILM fez. Diante de uma ferramenta cara e famosa por uma função — o LED "serve para trocar o fundo" — eles perguntaram o que mais ela resolve. E a resposta foi um problema totalmente diferente do anunciado: reflexo em superfície metálica. A ferramenta é a mesma que todo estúdio conhece; o uso é o que ninguém tinha pensado.

Isso vale para qualquer equipamento que você tem na mão agora. O painel de LED que você aluga para iluminar uma entrevista também é a fonte de luz mais controlável que existe para fotografar produto reflexivo — relógio, garrafa, embalagem metálica. A mesa de corte que edita seu institucional dá conta de um clipe musical. O gimbal do casamento estabiliza o walkthrough de um imóvel. Quase todo equipamento faz mais do que a função pela qual foi comprado — e enxergar isso é o que transforma um depósito de equipamentos num diferencial criativo, em vez de só numa lista de patrimônio.

Foi o que a ILM fez com um cubo de LED e uma nave de metal. É o mesmo raciocínio, em outra escala.